Jornalistas avaliam papel da mídia no 18º Congresso da Anapar

A mídia tem usado o noticiário para divulgar, diariamente, que as reformas de Michel Temer (PMDB) precisam ser aprovadas. Se por um lado, as alterações retiram direitos históricos da classe trabalhadora, por que a imprensa sonega sistematicamente essa informação da população?

Esse foi um dos focos do XVIII Congresso Nacional da Anapar, com a mesa “Meios de comunicação em tempos de pós-verdade”.

Mas afinal, o que é pós-verdade? De tão utilizada em 2016, o dicionário Oxford elegeu a palavra do ano. A jornalista e coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Renata Mielli, destaca que a expressão ganhou muita força na corrida presidencial de Tump à Casa Branca.

“Na campanha de Trump boatos e notícias falsas na internet ganharam muita força. Isso é a pós-verdade e não importa a veracidade do acontecimento nem mesmo a notícia veiculada. O mais importante é a opinião de quem noticia”, avalia. “Recentemente, vocês devem ter ouvido isso ‘não tenho provas, mas tenho convicção’. Isso nada mais é do que a pós-verdade”, explica Mielli. Assista

O jornalista e diretor da Telesur, Beto Almeida, citou o exemplo da invasão do Iraque em 2003, justificada com a mentira de que o país detinha armas nucleares. Isso não se confirmou após a destruição do país, mas ficou claro que o objetivo, na verdade, era obter o petróleo iraquiano. Ao usar outro exemplo para explicar a pós-verdade, Almeida lembrou o velho lema de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, que dizia “uma mentira repetida várias vezes se torna verdade”.

Ao se referir ao processo de comunicação da mídia com a sociedade, Almeida destacou que a população vive constantemente submetida a uma fraude da realidade. “O que se estampa nos meios de comunicação, em boa medida, é fraudado, é manipulado. O trabalho do jornalista deixa de ser jornalismo para se degradar numa forma rebaixada de publicidade barata”, critica. Assista a partir do 6º minuto.

Ao falar sobre manipulação, Altamiro Borges, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, destacou que a mídia é especialista em omitir o que não interessa e realçar aquilo que satisfaz os interesses políticos e econômicos dos empresários de comunicação.

“A mídia omitiu que havia 200 mil pessoas em Brasília no dia 24 e realçou o vandalismo, que em boa parte foi feito por agentes infiltrados. É aí que eles realçam, pra mostrar que os movimentos sociais e populares são vândalos. Isso é manipulação, isso é pós-verdade”.

Também chamou atenção à dualidade perigosa dos significados das palavras. “Quando se fala em reforma agente pensa, a casa está ruim e por isso precisa reformar. Mas o governo Temer fala em reforma para demolir e destruir a Previdência. Então, as palavras são sempre perigosas, é preciso destacar isso”, disse.

Em outro exemplo dos sentidos contraditórios e manipulados das palavras, Borges cita o antigo partido de direita PFL. “O partido Democratas, por exemplo, apoiou a ditadura. Então, é um jogo de palavras para obter significados desejados, mas que nem sempre correspondem à realidade. Isso também é pós-verdade, o que representa a capacidade de manipulação que sempre existiu na mídia”, acrescenta Borges.

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