Notícias da Previdência
Folha de S.Paulo (06/11/2009) Lula tenta novo acordo para aposentados Governo deve reapresentar proposta que dá reajuste acima da inflação, mas menor do que previsto em projeto no Congresso
Segundo auxiliar de Lula, ideal seria não votar nunca o projeto, mas apoio do PSDB à proposta de Paulo Paim (PT-RS) assusta governo
De volta de Londres, o presidente Lula reúne hoje sua equipe para buscar um acordo sobre o reajuste das aposentadorias acima do salário mínimo. Ele deseja ressuscitar a ideia de dar aumento real a esses benefícios de metade da variação do PIB (Produto Interno Bruto) de dois anos antes.
Segundo a Folha apurou, Lula quer condicionar essa negociação, porém, à aprovação de todas as centrais sindicais e entidades ligadas aos aposentados. O acordo anterior não prosperou porque nem todas as centrais aceitaram a proposta elaborada pelo governo.
Segundo um auxiliar de Lula, o "ideal seria não votar nunca" o projeto, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). O presidente, contudo, deseja tentar um acordo com os aposentados para evitar desgaste político na véspera da eleição presidencial.
Caso isso não seja possível, a decisão do governo será mesmo trabalhar para impedir a votação do projeto em tramitação na Câmara, que concede às aposentadorias acima do mínimo o mesmo reajuste do piso salarial da Previdência.
O pior cenário, na avaliação governista, é que as pressões dos aposentados levem a Câmara a aprovar o projeto sem alterações. Nesse caso, Lula irá vetá-lo por conta do seu impacto negativo nas contas públicas. Pelos cálculos do governo, ele representaria um gasto extra aos cofres públicos em 2010 acima de R$ 6 bilhões.
Anteontem, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), chegou a colocar o projeto na pauta de votação. Acabou retirando depois de uma operação comandada pelos líderes governistas.
Temer decidiu votar o projeto depois de pressão dos aposentados, que ameaçavam acampar nos salões da Câmara. Há três meses, eles já haviam feito o mesmo. Recuaram depois de ouvir a promessa do governo de que seria fechado acordo com todas as centrais.
Antes de incluir o projeto na pauta de votação desta semana, o presidente da Câmara avisou o governo de sua decisão diante do fracasso em estabelecer um acordo com os aposentados.
6% em 2010
Em agosto, o governo havia feito a proposta de dar às aposentadorias acima do mínimo um reajuste próximo de 6% em 2010 -2,55% referentes à metade da variação do PIB de dois anos antes mais a inflação. Isso levaria a aumento de despesas da Previdência de cerca de R$ 3 bilhões.
A regra é similar à já aplicada ao salário mínimo. A diferença é que, no caso do piso salarial, a variação do PIB de dois anos antes é aplicada integralmente. Ou seja, além da inflação, o salário mínimo, inclusive o pago pela Previdência, tem aumento de 100% do PIB.
O acerto feito anteriormente havia obtido o apoio da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e da Força Sindical, mas não foi aceito pela Nova Central Sindical, pela CTB (Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e pela Cobap (Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas).
O governo contava com o apoio do PSDB para barrar o projeto elaborado pelo petista Paulo Paim, já aprovado no Senado. Os tucanos chegaram a dizer que ficariam do lado do governo, mas depois recuaram e ameaçaram votar, juntamente com os democratas, a favor da proposta.
Na avaliação de auxiliares do presidente, sem um acordo com os aposentados, até os deputados da base aliada votarão a favor do projeto diante do receio do prejuízo eleitoral.
Reajuste a aposentado pode custar R$ 3 bi
Previsão de gasto extra para 2010, caso a proposta de Lula vingue, é vista como "absorvível" pela equipe econômica
Ganho real acima da inflação ficaria em 2,5%, enquanto previsão para reajuste em 2011 ficaria em cerca de 0,5%, segundo projeções
O impacto fiscal do acordo que o presideznte Lula negociará com os aposentados é considerado "absorvível", segundo avaliação do governo. Sem levar em conta o resultado dessa negociação, o deficit esperado para a Previdência no ano que vem é de R$ 39 bilhões.
Nas contas do Ministério da Previdência, o aumento real para os benefícios acima do salário mínimo -pela regra de 50% da variação do PIB de dois anos antes- deverá gerar um custo adicional de R$ 3 bilhões no Orçamento de 2010, cerca de um terço dos gastos com o Bolsa Família neste ano.
O aumento (incluindo a inflação) em 2010 ficaria próximo de 6% e beneficiará 8,2 milhões de aposentados e pensionistas. Para 2011, no entanto, a mesma regra deverá garantir reajuste real próximo de zero, já que o PIB a ser aplicado será o deste ano, e as projeções flutuam em torno de 1%. Como os aposentados levariam só a metade da variação do PIB, o aumento acima da inflação no primeiro ano do próximo governo seria equivalente a 0,5%.
De todos os pontos do acordo, o aumento real para os benefícios de quem tem aposentadoria acima de um salário mínimo é classificado como o de maior potencial na elevação dos gastos públicos.
Já a proposta de criar o chamado fator 85/95, nos seus primeiros cincos anos de vigência, trará ganhos para o governo. Aumentará a arrecadação previdenciária e reduzirá as despesas com benefícios.
O novo fator é defendido pelo governo como alternativa ao atual fator previdenciário. A nova fórmula permitirá que o trabalhador se aposente quando a soma de sua idade e tempo de contribuição for igual a 85 anos, para mulheres, e 95 anos, para homens.
Na prática, o fator 85/95 jogará para a frente gastos que o governo teria agora. Mas terá um efeito colateral: ao adiar as aposentadorias, a Previdência também estará assegurando aos trabalhadores benefícios de valor mais elevado no futuro. Assim, a economia obtida nos primeiros anos do novo fator será transformada em aumento de gastos a partir de 2016.
A previsão é que essa elevação das despesas atinja quase um ponto percentual do PIB em 2050. Para os técnicos, os ganhos imediatos e as perdas de longo prazo se equilibram. (VALDO CRUZ - Folha de S.Paulo)
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