Análise de conjuntura e correlação de forças

De: 15 de outubro de 2018 Notícias

*José Álvaro de Lima Cardoso

A análise de conjuntura é uma espécie de jogo de xadrez, onde os jogadores são, ao mesmo tempo, peças que compõem o tabuleiro. Na vida econômica, política e social, real, as jogadas realizadas têm consequências diretas sobre os protagonistas do jogo. Por isso não existe neutralidade na análise. Toda análise persegue algum objetivo determinado, não existe análise “pura”, na qual o ator social não defenda algum interesse. Por exemplo, as análises dos economistas do setor financeiro são realizadas a partir do ponto de vista do setor. Os dados que não interessam, podem até ser analisados, mas ficam “fora”, não são divulgados por interesse econômico e político do ator que está conduzindo a análise.

Por isso também, deve-se sempre procurar ver o que está sendo dito por cada ator social, mas principalmente o que os atores não dizem, ou seja, o conteúdo que está disfarçado nas entrelinhas. Neste aspecto, quem quiser fazer análise de conjuntura nos dias atuais, no Brasil, está num país que se constitui um imenso laboratório de conjuntura econômica e política. O Brasil sofre a combinação de uma grande crise econômica com um processo de golpe de Estado, o que oferece um riquíssimo material para a análise de conjuntura. Inclusive de técnicas de guerra híbrida, já que o Brasil ficou no epicentro de uma delas. A operação que está sendo realizada pelos golpistas é arriscadíssima, mas a gravidade da crise mundial do sistema capitalista exige um grau elevado de risco.

Não basta apenas estar em dia com a leitura dos blogs, jornais e portais na internet para entender o que está ocorrendo. No volume de informações que é veiculado todos os dias é necessário identificar os ingredientes, os atores, os interesses em jogo. As relações observadas na sociedade, entre as classes sociais, podem ter várias naturezas, a depender do momento conjuntural: podem ser de confronto, de coexistência, de cooperação. No momento, por exemplo, o que se observa é uma grande polarização política na sociedade, cujo desfecho é impossível prever. Nestes momentos políticos específicos, o desenrolar da conjuntura política e econômica ocorre nos extremos do espectro político, e não no centro, como revela, inclusive, a história do Brasil.

Aliás, uma análise de conjuntura adequada pressupõe o conhecimento de história do país em foco. A história costuma repetir padrões, ainda que com novas determinações e elementos. A análise eficaz, além disso, é aquela que é realizada para captar com a maior precisão possível a realidade, e assim interferir na mesma para mudá-la em determinada direção. A análise deve ser fria e realista. Deve-se analisar a situação “como ela é” e não como achamos que ela “deveria ser”. O otimismo deve-se deixar para a ação. Neste sentido é importante sempre lastrear uma análise com dados e indicadores. Mas o mais importante é a interpretação destes dados pelo analista. Os dados não falam por si, eles precisam ser interpretados. Um detalhe: apesar da análise de conjuntura ser dinâmica e fluída (como é a própria conjuntura), suas vigas mestras não devem ser abaladas por qualquer acontecimento. Análise de conjuntura não deve ser igual uma biruta de aeroporto. Em regra, análises que mudam em função de qualquer lufada de vento, não servem para nada.

Outro conceito imprescindível na análise de conjuntura é o de correlação de forças. Avaliar a relação de forças é decisivo se se quer tirar consequências práticas da análise. Por exemplo, neste momento no Brasil os trabalhadores estão numa relação de forças extremamente desfavorável em relação às forças reacionárias e do atraso. Prova cabal disso foi o golpe de Estado e a perda de direitos seculares (obtidos a sangue, suor e lágrimas) em uma velocidade inusitada. O próprio avanço eleitoral da extrema direita, por sua vez, é prova evidente da correlação de forças adversa. Do ponto de vista dos trabalhadores, o antídoto para o problema é conhecido: paciência, tenacidade, conhecimento da história, trabalho de resistência, e compromisso com as melhoras causas do País.

 

*José Álvaro de Lima Cardoso é economista

 

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