Artigo – Educação Previdenciária: Analogia sobre o planejamento previdenciário

De: 5 de março de 2020 Sem categoria

“Desistir? Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério. É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça”.

Cora Coralina

Figurinha carimbada de qualquer álbum o atleticano Leonardo Silva se aposentou ao final de 2019, aos 40 anos de idade. Excelente oportunidade para fazermos uma analogia sobre o sentido do planejamento para aposentadoria.

Inicialmente vou trazer algumas informações sobre a curta carreira no futebol: a profissionalização se inicia por volta dos 19 anos, o ápice se alcança aos 27,5 anos e a aposentadoria ocorre com idades entre 33 e 38 anos. No geral as carreiras são encerradas -devido à perda de rendimento, contusões e/ou a perda de valor econômico para os clubes, nos times das séries de acesso, no caso brasileiro nas séries B e C.

A canção Futebol, da banda Skank, cumpre o papel de retirar a obviedade do processo, pois quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol, quantos milhares não se aventuraram na carreira e viram que ou não deram para o esporte, ou ainda não foram sorteados nessa loteria que premiou poucos.

Daí o destaque a brilhante carreira do zagueiro-artilheiro do Atlético, com mais de 30 gols marcados, sendo alguns decisivos como o da Libertadores de 2013 e que, além de todos os troféus e marcos conquistados, nos ensina sobre a necessidade de bem administrar a etapa da aposentadoria.

Foi à aposentadoria compondo o plantel de um time da elite do futebol brasileiro, o Atlético Mineiro, atuando na maioria das partidas de forma decisiva. Infelizmente são poucos os exemplos, no Brasil e no mundo, de atletas de alto rendimento que conseguem levar com qualidade a carreira até essa idade.

Muito treino, disciplina e um excelente planejamento permitiram a ele manter-se motivado e liderar seus companheiros até o encerramento da sua carreira. Estar nesse seleto grupo e percorrer toda a carreira em alto nível é para poucos.

Já tendo formado a sua independência financeira o atleta mantem planos para atuar no futebol. Sim, existe vida depois da aposentadoria e ele está analisando assumir um cargo na comissão técnica do Atlético e tornar-se um dos embaixadores do clube, promovendo a atividade esportiva aos mais jovens.

Fazendo uma analogia com todos os demais trabalhadores, o que vai manter a sua qualidade de vida na aposentadoria será a disciplina para percorrer essa jornada, agora como aposentado, mantendo horizontes e perspectivas para além da carreira.

Quando pensamos em disciplina, muitos o fazem somente por obrigação, o mais importante é construir o comportamento de movimento e engajamento contínuo. Buscando inspiração e estímulo para sonhar, realizar seus sonhos, não se frustrar ao ver que nem todos são realizáveis, e, por fim, reconstruir novos sonhos e projetos de vida.

Isso mesmo, este não é um texto de autoajuda, onde basta querer para se ter êxito. É importante entender que ao longo da vida laboral, seja na carreira, no ambiente de trabalho e, também, na aposentadoria nem todos os sonhos e projetos vão se realizar. O planejamento é a grande alavanca que permitirá percorrer ou amenizar essa jornada a ser vivenciada.

Planejar a aposentadoria é um ato individual que possibilita estabelecer: aonde e como chegar ao final da relação de trabalho e visa promover a qualidade de vida na aposentadoria. Para projetar esse caminho é importante responder ao menos três questões:

O que você pretende fazer fora da relação de trabalho?

Com que idade você quer se aposentar?

Qual a renda que você irá necessitar para realizar objetivos futuros, preservar a condição de vida e constituir reservas para as emergências? e

Se preocupe, parece difícil e é. E isso tem a ver com você mesmo, portanto, não vá de peito aberto para a aposentadoria. Busque responder essas três questões principais, recalcule a rota para sua aposentadoria e determine os projetos dessa fase. Isso serve para todos e só para reflexão, em 2018, a expectativa de vida média de um homem aos 40 anos é de mais 36,9 anos segundo o IBGE[1].

Como a vida regrada que teve, os contínuos checkups e dada a sua condição financeira ele terá um excelente padrão de vida, comparável aos melhores padrões mundiais e frente a outros grandes atletas com passagens pelo time mineiro.

Ele serve como um excelente exemplo para o planejamento previdenciário, visto que representa um profissional que foi à aposentadoria sem traumas, a começar pela escolha por se aposentar aos 40 anos. Em entrevista ao canal Sportv afirmou ter se mantido afinado com o Clube, apto a render o mesmo que seus companheiros e com alegria sempre que entrou em campo.

Leonardo Silva é um dos raros jogadores que escolheu permanecer jogando no futebol brasileiro, sendo o maior tempo no Atlético, daí tamanha identificação com o clube e sua torcida. Com a remuneração recebida construiu um excelente patrimônio, mas ficou distante dos milhões de dólares e euros pagos na Arábia, Europa e, agora, na China[2].

E o que esse exemplo do futebol, tem a ver com o trabalhador que deverá se aposentar no Brasil e no mundo? Sugiro fazer uma analogia buscando percorrer com galhardia e vontade a sua carreira profissional, qualquer que seja, e manter a qualidade de vida. Sabendo que a qualidade de vida só é possível quando se está em equilíbrio: físico, mental, emocional e espiritual.

O plus significativo que você pode agregar a esses domínios é o da disciplina financeira, que lhe permitirá ir à aposentadoria sem dívidas, com independência e capacidade de manter-se sem sobressaltos. E, melhor ainda, aproveite! Existe ampla rede de entidades que promovem a melhor idade e oportunidades mil para se realizar, em todos os sentidos.

Buscar poupar ao longo de toda a vida ao invés de gastar todo o salário todos os meses é um ótimo caminho. Todos conhecemos exemplos de profissionais que ao longo da vida laboral recebendo salários iguais, mesmo que baixos salários, conseguiram ou não poupar e construir um padrão de vida para si e seus filhos.

Alguns foram disciplinados poupando e construindo um futuro, para si e para os seus, mas o inverso também é verdadeiro. Um exemplo do futebol já muito discutido é o do craque Garrincha, que durante sua carreira não poupou ou reservou para o seu futuro, imaginando sempre estar apto a gerar renda.

Deixar para a sorte decidir o seu futuro é literalmente apostar em uma roleta viciada, em que apenas 1% se dará muito bem, sobretudo em um país de tamanha desigualdade[3], como o Brasil, em que alguns ganham milhões e a grande maioria centenas de Reais.

Independentemente do seu salário, buscar poupar entre 5% e 10% por mês faz e fará toda diferença para sua aposentadoria. Estudos realizados pelos organismos mundiais Banco Mundial, OCDE e OISS, consideram que em geral os trabalhadores devem reservar ao longo da vida laboral o percentual médio de 7,5%, para complementar a renda de aposentadoria.

Se imaginarmos que o valor médio da aposentadoria paga pelo INSS[4], em novembro de 2019, foi de R$ 1.463,02, fica clara a necessidade de se manter reservas para preservar a qualidade de vida na idade mais avançada. Independentemente da posição, na carreira ou profissão, manter reservas sempre será o melhor caminho.

Como nos explicou Cora Carolina: “… O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada, caminhando e semeando no futuro terás o que colher…”.

Planejar é a melhor maneira de transitar da vida ativa para a vida de aposentado. Construir esse caminho para o seu futuro começa agora. É o você do presente garantindo o você do futuro, afinal o amanhã é agora!

Será fundamental criar um mapa mental, projetar desafios, organizar seus âmbitos, qualificar os seus domínios e determinar qual o tamanho do esforço para se desfrutar de uma menor carga horária e esforço físico. Ou alguém acha que o ex-jogador não gostaria de estar concentrado com seus amigos, para a temporada 2020? Ele precisa estar preparado, afinal está sendo a sua primeira vez fora dessa rotina.

No Brasil, cerca de 82% dos aposentados, mantêm alguma atividade de trabalho. Óbvio que muitos buscam complementar a renda, mas o que une a todos é a vontade de continuar entregando a sua obra, qualquer que seja, para a sociedade, sua família e a sua realização pessoal.

Sobre o que nada tem a ver esqueça o inebriante futebol, caia na real e foque em não ir para a aposentadoria por raiva, medo ou paixão. Isso mesmo, o planejar é a boa escolha. Não vá para a aposentadoria apenas por raiva do seu chefe, por medo do que a reforma da previdência pode causar ou, ainda, por uma paixão de carnaval. Informe-se, organize-se e planeje!

Não esqueça de que mesmo, o Leonardo Silva, deve ter muitas histórias de ralação, de dúvidas, receios e de mudanças no seu comportamento, que foram difíceis, mas não impossíveis. E, sempre, discuta com a sua família sobre o seu projeto de aposentadoria, pois dificilmente ela irá buscar o seu mal e, embora individual, a sua decisão afeta todos os seus familiares, principalmente pela maior convivência.

Ah, para quem achou estranho este texto que tem o jogador ou ainda o Atlético Mineiro, como referências. Eu tenho o Galo como um time irmão e aprendi nessa minha segunda passagem por Minas a respeitar o time e sua torcida. Além disso, acredito cada vez mais nas pessoas, nas suas histórias, entregas e essa é uma daquelas boas para se enaltecer e elogiar.

Quem sabe, daqui a uns dez anos, eu não consiga entrevistar o próprio Leonardo Silva num dos meus Cafés com Previdência, para saber e criar outras analogias. Até lá fico muito feliz de ter nele referências para dialogar sobre um tema tão importante: a Previdência, com um “P” bem maiúsculo, como foi a carreira do grande zagueiro que tive a felicidade de ver jogar e, saber inclusive, que já foi do meu Palmeiras.

Então bora lá ser Feliz! Boas décadas de vida e uma leve transição para o atleta em sua nova vida como aposentado. Para cada um dos leitores fica o convite para que reflitam sobre a sua jornada e, no que couber, para que percebam a necessidade de estabelecer o seu planejamento previdenciário. O você do futuro agradece!

Edevaldo Fernandes da Silva

Economista com mestrado em gestão de planos de previdência pela Universidad Alcalá da Espanha, pós-graduado em Banking pela Universidade Mackenzie, com passagens pela direção das seguintes entidades: Fundação Libertas, IPREV/DF, PREVIC, EFPConhecimento, IPREM/SP, Banco do Povo e SESE/Bancários SP.

 

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