BC dos EUA inicia retirada de estímulos

De: 19 de dezembro de 2013 Clipping

Ritmo do corte foi considerado moderado e animou os mercados; no Brasil, BC vai reduzir compra de dólar

Antes da decisão americana, presidente Dilma Rousseff afirmou que país nunca esteve tão preparado

O Fed (BC americano) deu o primeiro passo para reduzir sua política iniciada no fim de 2012 para tirar a economia dos EUA do buraco. A diminuição da ajuda –que provocou turbulências no Brasil e em outros emergentes desde que foi sinalizada, em maio– foi recebida ontem com alívio pelos mercados financeiros.

Até há poucas semanas, a redução dos estímulos era esperada com preocupação porque poderia provocar uma desvalorização generalizada nas moedas emergentes, mas, ao menos ontem, o corte de US$ 10 bilhões a partir do mês vem nas compras de títulos, para US$ 75 bilhões, foi visto como moderado.

Além disso, foi interpretado como um sinal de confiança do Fed na recuperação da maior economia global.

As Bolsas americanas tiveram valorização. O índice Dow Jones, o principal de Nova York, subiu 1,84%. As Bolsas asiáticas se valorizaram no início das operações –Tóquio abriu em alta de 1,5%.

No Brasil, a Bovespa já estava no fim das operações no momento do anúncio do Fed e subiu 0,94%.

No início da noite de ontem, poucas horas após a decisão americana, o Banco Central anunciou que vai reduzir de US$ 3 bilhões para US$ 1 bilhão o seu programa de oferta de moeda americana que tinha como objetivo segurar a cotação do dólar.

Os leilões começaram em 22 agosto. À época o real era a moeda emergente que mais perdia ante o dólar, com queda de 15,8%, desde que Ben Bernanke, presidente do Fed, indicou, em 22 maio, que os estímulos seriam reduzidos.

A partir da ação do BC, o real subiu 3,7% e é, entre as divisas emergentes, a quarta que mais se valorizou. Ontem, a moeda subiu 0,93%, a R$ 2,343, mas o mercado estava fechado no momento da decisão do Fed.

A redução do valor dos leilões do Banco Central indica que o organismo aponta que o mercado não vai reagir com nervosismo à medida.

"O Brasil nunca esteve tão preparado", disse a presidente Dilma Rousseff na manhã de ontem, antes da ação do Fed. A presidente disse que antes um "espirro nos EUA" virava "pneumonia no Brasil", mas que isso mudou.

RITMO
A decisão do Fed de fazer o corte em um ritmo lento se deve ao mercado de trabalho. Apesar de o desemprego ter caído de 7,8%, em setembro de 2012 (quando o estímulo teve início), para os atuais 7%, há problemas como o excesso de pessoal que está fora do mercado de trabalho.

"Nossa redução modesta reflete a crença que o progresso em direção aos nossos objetivos econômicos será sustentado", disse Bernanke.

Os juros, que hoje estão em uma banda de zero a 0,25% ao ano, só devem voltar a subir no fim de 2015. O Fed ainda reforça que as taxas de juros continuarão em torno de zero enquanto o desemprego permanecer acima de 6,5%.

Para o Brasil, esse ritmo lento acalmou analistas, que acreditam que não haverá uma fuga em massa de investidores, com o fim da "era do dinheiro barato", como ficou conhecido esse período.

Impacto pelo mundo
1 ESTADOS UNIDOS
Têm o desafio de acelerar criação de emprego com estímulo menor
2 BRASIL
Reação mais imediata deve ser no dólar e se investidores deixam país
3 EMERGENTES
Países como Indonésia e Turquia enfrentam pressão com suas contas externas debilitadas
US$ 75 bi será o volume de recursos
que o Fed (banco central americano) passará a injetar mensalmente na economia do país, por meio de recompra de títulos, a partir de janeiro; o volume até então é de US$ 85 bilhões

Por que o dólar aqui tende a subir com a medida?
Com a diminuição do estímulo, cai o volume de recursos disponíveis para investimento fora dos EUA, como no Brasil

Brasil está entre os países mais vulneráveis à mudança nos EUA

Pior cenário seria o de desvalorização mais forte do que a esperada do real
O Brasil é mais vulnerável à possível saída de dólares porque os recursos aplicados aqui por investidores de fora ajudam a financiar o significativo rombo na conta-corrente

A economia americana continua sendo, de longe, a maior do mundo. Esse fato conhecido explica por que mudanças na condução das políticas nos Estados Unidos mobilizam tanto a atenção nos demais países.

Isso não quer dizer que o impacto de desvios de rumo por lá nas outras nações seja uniforme.

Nem mesmo a crise financeira de grandes proporções ocorrida em 2008 afetou todos os países igualmente.

Naquele momento, o Brasil, por exemplo, esteve no grupo em que o impacto negativo ocorreu, mas foi menor do que em muitos outros mercados emergentes e nações desenvolvidas.

Em 2009, a economia brasileira contraiu 0,3%, ante recuo médio de 2,1% da economia global (medido à taxa de câmbio de mercado).

Agora, o país parece ter mudado de time. Pioras tanto nas contas externas quanto na posição fiscal nos últimos anos fazem com que o Brasil esteja do lado vulnerável à mudança iniciada pelo banco central americano.

Ao anunciar a mudança de política, o Fed confirma que a economia do país está em rota de recuperação. Ou seja, pode começar a se livrar aos poucos da montanha de dólares injetados no mercado para reduzir o custo do crédito e, com isso, estimular o crescimento econômico.

Isso é positivo dada a importante função de motor da economia mundial cumprida pelos EUA. Mas traz implicações que podem ser negativas para alguns países.

O início da retirada dos estímulos monetários tende a levar a um aumento gradual do custo de crédito e do retorno de investimentos financeiros em papéis como títulos do Tesouro americano.

Atraídos por rendimentos maiores, investidores podem optar por transferir recursos de outros países para os EUA.

O Brasil é mais vulnerável a esse possível movimento porque os recursos aplicados aqui por investidores de fora ajudam a financiar o significativo rombo na conta-corrente (que registra, por exemplo, as transações comerciais e de serviços do país com o exterior. Leia mais na pág. B8).

Com menos recursos para cobrir o deficit, o real tenderia a se desvalorizar. A menor confiança do mercado no comprometimento do governo brasileiro com as metas ficais poderia exacerbar esse movimento.
 
Uma depreciação mais forte do que a já esperada por economistas em 2014 pressionaria a inflação e aumentaria a dificuldade para financiar o deficit em conta-corrente.

A resposta de política econômica em uma situação desse tipo tenderia a ser uma elevação mais forte da taxa de juros para reduzir a pressão inflacionária e tornar investimentos no país mais atraente. O efeito colateral disso seria uma desaceleração da atividade econômica.

Por outro lado, o fato de o Fed ter começado a retirada dos estímulos antes do esperado pode fazer com que o processo seja mais gradual, e seus efeitos, menos capazes de causar turbulência.

Além disso, os indicadores brasileiros podem melhorar, reduzindo as preocupações em relação ao país.

Como sempre em economia, os cenários são especulações baseadas em dados que retratam o presente.

Fonte: Folha de S.Paulo

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