Congresso Anapar: “Precisamos recuperar o investimento para sustentar a expansão da economia”

28 de Agosto de 2020

Por Renata Vilela – Reconta Aí

 

Os investimentos dos fundos de pensão estão, em sua maioria, concentrados em papéis do governo. O volume desse tipo de investimento é calculado pelo economista e ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho em 70% dos valores. Contudo, esse tipo de investimento esbarra em dois pontos chave da economia hoje: a diminuição da rentabilidade por causa das baixas taxas de juros, e a pouca incidência na economia produtiva, que gera riqueza, empregos e renda no país.

Por isso, Luciano Coutinho propôs, durante o 21º Congresso Nacional de Participantes de Fundos de Pensão e de Usuários de Planos de Saúde de Autogestão, promovido pela Anapar, nos dias 26 e 27 de agosto, uma mudança de visão sobre eles. Para tanto, o economista explicitou um pouco do cenário global da economia durante a pandemia e as projeções para o futuro.

Transferência de renda e investimento público

De acordo com Coutinho, durante o período da pandemia, a economia mundial começou a se recuperar a partir de maio. O economista atribui isso aos programas de apoio a pequenas empresas e aos desempregados, mas também pela execução de uma política monetária altamente expansionista, junto com estímulos fiscais de liquidez. Assim como os investimentos em bancos para controlar os rumores de ruptura de cadeias de crédito.

Contudo, Coutinho alerta que nas duas últimas semanas, essa velocidade de recuperação parece estar diminuindo. Em vários países da Europa, a covid 19 foi controlada, mas nas duas últimas semanas novos surtos ressurgiram, preocupando as autoridades e os mercados.

Já nos EUA houve uma segunda onda bastante forte, com retorno de uma curva ascendente de óbitos. Além disso, acrescenta-se ao momento um EUA impasse entre o congresso estadunidense e o governo Trump sobre a transferência de renda para os vulneráveis.

O cenário brasileiro no mercado

O cenário brasileiro é parecido com o dos EUA, com a pandemia descontrolada e tensões entre os poderes que dirigem o país. Economicamente, o único fator que funcionou de maneira eficaz foi o auxílio emergencial, que Coutinho afirma ter proporcionado a possibilidade de consumo para as pessoas desempregadas e subempregadas.

Entretanto, o futuro é incerto, não há ainda um desenho sobre o futuro desse auxílio. Mesmo assim, o benefício contribuiu de maneira importante para recuperar a economia brasileira, ou mitigar sua queda. De abril a julho, ajudou a mitigar a queda da economia no segundo trimestre surpreendendo o mercado na comparação com outros países da América Latina. Com esse aporte, o Brasil mudou as projeções da queda do PIB, que antes giravam em torno de 6% e hoje de 5% na maior parte das análises.

“Embora essa medida seja meritória por ter evitado a pobreza absoluta, ela não é uma solução de longo prazo para recuperar e sustentar o crescimento”, afirma Coutinho. No mesmo sentido o economista mostra um cenário turbulento com uma elevação muito forte do desemprego, alta ociosidade na indústria e um panorama travado no comércio exterior, com exceção da exportação de commodities.

O crescimento depende do investimento

“A única alternativa de crescimento será engendrar um forte ciclo de investimento”, afirmou Coutinho. De acordo com ele, as áreas a serem privilegiadas são saúde, energia, logísticas, saneamento básico e educação. Entretanto, tal investimento não funcionará se o volume for pequeno. “Esse esforço precisará ser feito em uma escala capaz de movimentar a economia”, disse. No mesmo sentido, o economista argumenta que o investimento deve ser escalado: “Começar com 100 bilhões ao ano, depois 200 bilhões ao ano, assim por diante”. Só assim, seria possível reverter a tendência de queda de investimentos dos últimos anos.

Para tanto, é preciso que o estado organize diversas áreas. Entre as citadas, a preparação de uma carteira de projetos, financiamentos e garantias de longo prazo e fortalecimento e melhoria das agências reguladoras. Assim, nesse contexto não só os bancos públicos como o BNDES, Caixa e BB deveriam ser motores, mas as entidades fechadas de investimento. Elas deveriam ser chamadas a auxiliar esse processo, segundo o economista.

Dessa forma, os 73% da parcela dos fundos aplicada nos fundos públicos, poderia ser alocada em um plano de desenvolvimento do país, com o apoio do governo. Poderiam ser sócias de grandes empreendimentos, ou mesmo debenturistas.

E esse modelo de fundos poderia ser ainda maior caso os governos incentivassem esses fundos privados de pensão, aumentando ainda mais a capacidade de intervir positivamente na economia real. Hoje, faltam ativos de qualidade para permitir a realocação de capital do governo para a infraestrutura. Mas com as mudanças que a pandemia trouxe para o dia a dia, isso pode ser feito. Porém, Coutinho aponta que o governo ainda não tem um plano para isso.

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