Investir no exterior é a nova modinha

27 de Setembro de 2021

Em artigo publicado no portal Reconta Aí, Marcel Barros* e José Roberto Ferreira** afirmam que a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) 4661 ampliou as oportunidades para os fundos de pensão aplicarem seus recursos no exterior, pois algumas travas de sua antecessora, a resolução 3792, foram retiradas. Mas, que, considerando que, do limite atual de 10% que pode ser investido no exterior, o sistema, de forma consolidada, não chega a alocar nem 1%, questionam: a quem pode interessar essa medida?

Artigo na íntegra (para ler o original, clique aqui)

"A resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) 4661 ampliou as oportunidades para os fundos de pensão aplicarem seus recursos no exterior, pois algumas travas de sua antecessora, a resolução 3792, foram retiradas. Considerando que, do limite atual de 10% que pode ser investido no exterior, o sistema, de forma consolidada, não chega a alocar nem 1%, a pergunta que não quer calar é: a quem pode interessar essa medida?

Não posso acreditar que o CMN vai se equiparar ao Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC), como foi na Resolução 40, e atuar como “cartório” em favor de determinadas entidades (ou de outros interesses, como dos das assets que operam esses fundos). Afinal de contas, não é papel do CNPC e do CMN “resolver os problemas” criados pelas próprias entidades, via arranjo normativo. A quem interessa esse comportamento, ainda que seja em função da “modinha” dos investimentos no exterior?

Alguns operadores do mercado citam que esse tipo de investimento traz mais "diversificação”, uma vez que existem mais alternativas de ativos no exterior, o que diluiria o risco.

Inicialmente é preciso saber em que tipos de ativos serão aplicados os recursos dos trabalhadores brasileiros quando investidos no exterior. 

A primeira resposta que precisa ser dada é se existe algum controle quanto ao respeito aos princípios do PRI (programa independente da ONU sobre investimentos responsáveis) e ASG (fatores ambientais, sociais e de governança). São questões que tratam de sustentabilidade no longo prazo, tão caros a investimentos dessa categoria.

Muitos gestores falam em aplicar nas bolsas americanas, pois elas têm mais papéis e mais setores de atividade econômica e isso, por si só, já diminuiria o risco em relação à bolsa brasileira. Falso! O risco do mercado acionário é o mesmo em todos os lugares. Basta ver a loucura que ocorreu nas bolsas mundiais com o problema da incorporadora chinesa Evergrande. Todas, eu disse TODAS, caíram.

Importante ressaltar que existe uma grande diferença do que está ocorrendo agora com a crise de 2008. Em 2008 diversos bancos adquiriram papeis lastreados em dívidas hipotecárias americanas, cujos valores estavam superestimados, e os venderam pelo mundo afora em fundos e fundos de fundos que camuflavam o risco – quando explodium, todos perderam. Como dica, vale assistir ao filme “A grande aposta”, de 2015, disponível na plataforma Prime Vídeo.

Agora o problema está centrado na China e em alguns fundos e seguradoras associados à empresa chinesa, creio que sem capacidade de contaminar o mercado mundial. Ademais, o governo chinês ja agiu há algum tempo, tanto que alertou que imóveis são para residência e não para especular, daí uma das causas dos problemas da Evergrande.

Investir em fundos e em fundos de fundos no mercado internacional é ainda mais perigoso. Vamos citar novamente a crise de 2008, suas origens e consequências. É muito difícil saber que papéis compõem os fundos, qual seu “rating” e quem analisou e definiu o nível de risco. Será que foram as mesmas agências de classificação internacionais que avaliaram como triplo A os papéis de Lehman Brothers? São questões simples que precisam ser respondidas, pois o previsto em alguns dos artigos da resolução CMN 4661, tais como os artigos 4 e 10, podem ser usadas, futuramente, contra os gestores como no caso dos FIP (fundos de investimentos e participações).

Existe ainda o risco cambial. Se os fundamentos econômicos do país vão bem, sua moeda se valoriza e isso pode trazer perdas ao fundo. O contrário seria apostar contra a moeda local, algo que acredito seria profundamente danoso a todos os trabalhadores. Tem muita gente fazendo isso neste momento. Para garantir esse “ganho cambial” seria preciso uma operação de hedging para proteger o investimento, e isso tem um custo.

Temos visto inúmeros fundos de investimentos internacionais trazendo recursos para aplicar no Brasil, ou seja, existem perspectivas bastante positivas em relação aos rendimentos para os ativos por aqui. Não há porque levar o patrimônio do trabalhador brasileiro para correr riscos no exterior, financiar a divida de outros países e ainda gerar riqueza e renda por lá, sendo que temos inúmeras possibilidades nas terras de Pindorama.

Para investir no exterior, os fundos de pensão precisam terceirizar para “gestores de fundos de investimentos” que administrem mais de US$ 5 bilhões, ou seja, cerca de R$ 26 bilhões; estamos falando de grandes bancos e assets. São exatamente esses “grandes” gestores que fizeram o terror dos investidores em 2008 e podem novamente fazê-lo, só que agora com o beneplácito do mercado tupiniquim e sua nova modinha."

*Vice-presidente da Associação Nacional dos Participantes de Fundos de Pensão e de Beneficiários de Saúde Suplementar de Autogestão (Anapar) e representante dos participantes no Conselho Nacional da Previdência Complementar (CNPC). Foi diretor eleito de Seguridade da Previ por oito anos

**Economista, sócio-diretor da Rodarte Nogueira&Ferreira e ex-superintendente da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc)

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