“Não toque em meu companheiro”: lugar de memória e de diálogo com as lutas atuais dos trabalhadores

19 de Outubro de 2020

Patrícia Cunegundes Guimarães*

Já está disponível nas plataformas digitais o documentário “Não toque em meu companheiro”, co-produzido pela Fenae e dirigido pela cineasta Maria Augusta Ramos (de “O processo”). O filme traz a história da mobilização de um grupo de 110 empregados da Caixa Econômica Federal ao longo de um ano, após serem demitidos injustamente em 1991 no então governo de Fernando Collor de Mello. Durante o período em que estiveram demitidos, bancários de todo o Brasil se organizaram para garantir a sobrevivência dos trabalhadores e de suas famílias.

O cinema, muito além do mero entretenimento, cumpre o papel também de lugar de memória (conceito criado pelo historiador francês Pierre Nora), na medida em que a História é registrada pelas classes hegemônicas e não leva em consideração as memórias individuais que compõem a memória social/histórica. Ao entender o documentário como lugar de memória, compreendo que ele é o que resta e o que se perpetua de um outro tempo, nasce e vive do sentimento de que não existe memória espontânea, que é preciso criar arquivos.

No entanto, o documentário de Maria Augusta Ramos é mais que um lugar de memória. Ao resgatar a história dos 110 bancários injustiçados pelo governo Collor (1990-92), que lutaram durante um ano com o apoio de colegas de todo o país, ele expõe as contradições e as fraturas de um sistema neoliberal que promove o individualismo, enfraquecendo a luta coletiva. Ele é lugar de memória, mas resgata a centralidade do trabalhador na luta que se trava hoje contra o desmonte dos direitos trabalhistas e previdenciários, e contra a privatização dos bancos públicos.

 “Não toque em meu companheiro” é lançado no meio de uma pandemia, em que o governo federal aproveita para “passar a boiada” do desmonte do Estado. Nada mais oportuno. Que ele seja tema de debate nas “lives” nossas de cada dia e que ressuscite o sentimento de solidariedade entre os trabalhadores. Somos nós por nós.

Serviço: Assista ao documentário "Não Toque em Meu Companheiro" pelas plataformas Google Play (R$ 6,90) e iTunes (R$ 14,90)
https://youtu.be/xfVQP_k-iCI
*Consultora de comunicação da Anapar. Pesquisa documentários latino-americanos como lugares de memória. Mestre pela Universidade de Brasília e doutoranda na PUC-Rio, onde desenvolve tese sobre cineastas latino-americanos exilados

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