Fed inicia a estratégia de saída

De: 19 de dezembro de 2013 Clipping

Chegou o grande dia. O Federal Reserve (Fed) anunciou que o programa de compra de ativos será reduzido a partir de janeiro em US$ 10 bilhões, para US$ 75 bilhões ao mês. Desta forma, as compras de Treasuries caem de US$ 45 bilhões para US$ 40 bilhões e as de MBS (títulos lastreados em hipotecas) passam de US$ 40 bilhões para US$ 35 bilhões. É o começo do fim de um período histórico de política monetária não convencional, posto em prática depois do estouro da crise imobiliária nos EUA. Também histórico porque marca o fim da era Ben Bernanke na direção do Fed e abre caminho para Janet Yellen, que assume em fevereiro. O início da alta de juros foi jogado para 2015 ou 2016.

O Fed fez ontem o que se esperava: avisou. Desta forma, retira o ruído de comunicação que persistia desde junho, quando Bernanke apontou para a redução dos estímulos à economia ainda neste ano. Naquela ocasião, o chairman do Fed estabeleceu três grandes passos pelos quais a economia americana deveria passar: uma recuperação global mais inequívoca, a recuperação consistente do emprego e a inflação em linha com a meta. Este último ponto é o que embasava as apostas de que o BC americano postergaria o "tapering" (início da redução dos estímulos), talvez até março. Isso porque o nível atual da inflação, bem abaixo da meta, significa um risco para a economia, visão defendida por Eric Rosengren, único membro do Fomc a votar contra a redução das compras em janeiro. Ademais, a recuperação não parecia tão óbvia para muitos participantes do mercado.

Mas o Fed acredita que inflação voltará à meta e enfatizou, mais uma vez, que as expectativas de longo prazo mantiveram-se estáveis nos últimos meses.

Em sua última conferência de imprensa à frente do banco central, Bernanke disse que o comitê ficará vigilante e agirá se notar uma desaceleração adicional na variação dos preços. "Nossa perspectiva é de que a inflação voltará para 2%, mas levamos isso muito a sério e tomaremos as ações apropriadas se não houver sinais de que não voltará para esse patamar", disse ele, acrescentando que "é preciso, obviamente, uma pouco de sorte e uma boa política".

A avaliação mais ampla da economia americana melhorou, como era de esperar, e que o movimento será feito "à luz do progresso cumulativo" das condições do mercado de trabalho. As projeções atualizadas mostraram crescimento do PIB entre 2,2% e 3,2% no ano que vem e entre 3,0% e 3,4% em 2015. Em 2016 cresceria entre 2,5% e 3,2%. A inflação só voltaria à meta em 2015, quando se projeta entre 1,5% e 2% para o índice de despesas de consumo pessoal (PCE, em inglês). A maioria dos membros do Fed não vê elevação dos juros até 2015 e três deles só esperam esse movimento em 2016.

O imbróglio para o mercado, do ponto de vista das expectativas deste primeiro movimento de alta da taxa de juros, é exatamente o nível atual de 7% da taxa de desemprego, ante um parâmetro estabelecido de 6,5% para que a discussão neste sentido começasse.

Nesse sentido, o banco central americano reforçou os "guidances" para a saída da política monetária altamente acomodatícia não por meio de uma mudança numérica nos "parâmetros" de desemprego e inflação. No comunicado da reunião, o comitê disse que vai considerar medidas adicionais para avaliar as condições do mercado de trabalho, indicadores de pressões inflacionárias e expectativas de inflação e leituras sobre a evolução financeira.

Com base na análise desses fatores, o Fomc antecipa que provavelmente será adequado manter a taxa atual de juros (de 0% a 0,25%) por mais tempo mesmo depois que o desemprego atingir 6,5%, especialmente se a inflação continuar abaixo da meta.
Sobre os passos da redução do programa, Bernanke também repetiu diversas vezes que não há um caminho predeterminado e que os próximos passos serão mensurados a cada reunião em função dos indicadores econômicos. A expectativa dele, caso a economia continue a se recuperar no ritmo atual, é que o Fed reduza as compras a cada reunião em um montante similar ao atual (US$ 10 bilhões), o que faria com que as compras fossem extintas no fim de 2014. Mas fez questão de afirmar que se o Fed perceber que a recuperação está mais lenta que o esperado, pode "segurar as reduções por uma reunião ou duas". Questionado se há a possibilidade de elevação das compras caso a atividade decepcione muito, Bernanke disse que "sob algumas circunstâncias, sim".

Por outro lado, se a atividade e o mercado de trabalho se fortalecerem mais que o esperado, o banco central americano pode acelerar a redução dos estímulos, cortando as compras a um passo superior ao definido ontem.

Fonte: Valor Online

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