Fundos de pensão rejeitam Eldorado

De: 28 de fevereiro de 2014 Clipping

Apesar da forte pressão da família Batista, dona da J &F Investimentos e da JBS, os fundos de pensão Previ, Petros e Funcef não vão colocar dinheiro na Eldorado Brasil, produtora de celulose controlada pelo grupo.

As fundações foram procuradas pela família Batista, com uma proposta de aporte de R$ 2,8 bilhões na empresa, que entrou em operação há pouco mais de um ano. As principais razões para o desinteresse são o elevado nível de endividamento da Eldorado e a maneira como a operação fabril foi estruturada, com uso intensivo de madeira de terceiros, que é mais cara.

A Previ, que contratou a finlandesa Pöyry para assessorá-la nos assuntos relacionados à indústria de celulose, recebeu proposta de aporte de R$ 1,4 bilhão na Eldorado, porém, segundo apurou o Valor, não enxergou viabilidade no negócio. A fundação estaria disposta a participar de um processo de consolidação de ativos de celulose, em vez de simplesmente se tornar sócia da Eldorado.

Sem capitalização das três fundações, a futura expansão da fabricante vai depender de uma solução financeira

Segundo fontes a par do assunto, a crescente dívida de curto prazo da Eldorado, em razão da limitada disponibilidade de madeira própria para abastecimento da fábrica de Três Lagoas (MS), problemas de geração de caixa e o cenário de sobreoferta de celulose nos próximos anos diminuíram o apetite dos fundos.

Considerando-se ajustes no resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), a alavancagem da Eldorado estaria em 9 vezes no fim de setembro. Na mesma data, a dívida líquida era de R$ 5,83 bilhões e o endividamento bruto, de R$ 5,95 bilhões – no acumulado de janeiro a setembro, o prejuízo líquido da Eldorado totalizou R$ 781 milhões, ao passo que a receita ultrapassou a casa de R$ 1 bilhão.

Além disso, os valores considerados no aumento de capital, que contemplaria outros R$ 1,4 bilhão de Petros e Funcef, conjuntas, teriam sido calculados a partir de um valor de R$ 12 bilhões atribuído à Eldorado. Essa cifra é considerada "elevadíssima" entre fontes do mercado – a título de comparação, na quarta-feira, o valor de mercado da Fibria, maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, era de R$ 14,064 bilhões e o da Suzano Papel e Celulose, segunda maior produtora global, de R$ 9,69 bilhões.

Por outro lado, existiria a percepção, dentro da Previ, de que seria mais barato – e lógico – participar do capital da Eldorado via consolidação, sobretudo se o agente consolidador fosse a Fibria, que já tem a fundação como acionista. A própria Fibria nasceu de uma rodada de consolidação, combinando ativos de Aracruz e Votorantim Celulose e Papel (VCP), e está listada no Novo Mercado, segmento com padrões elevados de governança corporativa.

Segundo fontes próximas à indústria, as duas empresas já estariam conversando sobre o assunto, porém as tratativas ainda esbarram no preço do negócio. Procurada, a Eldorado informou, por meio da assessoria de imprensa, que não tem informações a respeito desses temas. A Fibria disse que não comenta "rumores de mercado".

Nesse cenário, o futuro do projeto de expansão da Eldorado dependeria de uma solução financeira que não passe pela Previ, nem por Petros e Funcef. Conforme uma fonte, as duas fundações, que já são acionistas da companhia, devem acompanhar a decisão da Previ de não participar do aumento de capital.

A Petros, por meio de assessoria de imprensa, informou que não comenta assuntos estratégicos de investimento da empresa. Já a Funcef informou que não comentaria, uma vez que ainda não realizou nenhuma avaliação sobre possíveis novos investimentos.

Antes mesmo de colocar em operação a primeira fábrica de Três Lagoas (MS), em novembro de 2012, a Eldorado já havia anunciado planos de instalar a segunda linha, com capacidade para até dois milhões de toneladas por ano. Com isso, em 2017, quando o projeto deve entrar em operação, a capacidade instalada total da empresa chegaria a pelo menos 3,5 milhões por ano – hoje, a Fibria pode produzir mais de 5 milhões de toneladas anuais da matéria-prima e a Suzano, 4,4 milhões de toneladas, considerando-se a celulose que está integrada à produção de papel.

Em um primeiro momento, para a Eldorado o aumento de capital viabilizaria uma parte do projeto de expansão. Porém, há uma corrente de análise que considera a possibilidade de a empresa usar o aporte de capital para melhorar seu balanço financeiro e, então, encampar negociação mais firme com a Fibria com maior poder de fogo – e de precificação.

A Eldorado terá de investir mais de US$ 3 bilhões para colocar em operação a segunda linha e a proposta inicial era levantar uma parte dos recursos por meio de oferta pública inicial de ações (IPO, em inglês). Há algum tempo, a companhia passou a trabalhar com o modelo de aumento de capital, por meio de colocação privada, que poderia resultar na chegada de um novo sócio. Foi nesse contexto que a Previ teria sido procurada.

Fonte: Valor Online

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