Para a luta não há contraindicações

De: 5 de outubro de 2018 Notícias

*José Álvaro de Lima Cardoso

As políticas adotadas no Brasil até 2016 (que aliás foram, em boa parte, as motivações do golpe), mesmo que moderadas, foram muito importantes para a melhoria de vida da população. Os ganhos reais do salário mínimo, a melhoria da distribuição de renda, a expansão da rede de ensino público, a ampliação dos gastos com saúde e educação, a elevação do crédito público, a colocação da riqueza do pré-sal a serviço da população (lei de Partilha), a retirada do Brasil do Mapa da Fome, a geração de milhões de empregos, todas elas políticas realizadas nos marcos legais, tiveram enorme repercussão para o país e para a esmagadora maioria da população.

Tais políticas, além de possibilitarem um apaziguamento social, em regra, tinham custo baixo no orçamento, em termos comparativos. Por exemplo, o que representa o gasto com o Programa Bolsa Família (0,4% do PIB), comparado com o custo elevadíssimo da dívida interna brasileira, de interesse de 10.000 famílias de super ricos?

É uma fração absolutamente ridícula. Só se entende a interrupção do processo no Brasil, se levarmos em conta que hoje quem comanda as ações do empresariado é o capital financeiro, que, no mundo todo, é contra até mesmo pequenas melhorias para a maioria da sociedade. O projeto do capital financeiro é extremamente conservador, e contrário ao desenvolvimento e a distribuição de renda. E isso é assim no mundo todo, como se pode observar pelo processo atual de concentração de renda, verificado também nos países centrais do capitalismo.

Com o golpe foi interrompido um processo de construção de um projeto nacional de desenvolvimento, ainda que com uma série de limitações, mas fundamental para o país.

Por isso foi atropelado. Essa experiência recente do Brasil, de melhoria dos indicadores, apesar do desfecho extremamente amargo e da conclusão imprevisível, foi uma amostra de quanto o Brasil pode ser uma grande nação. A partir do momento em que desenvolver uma política soberana, voltada para os interesses da maioria da população, isso tende a acontecer, ainda que não seja algo que irá acontecer naturalmente (será com luta).

Está havendo reação ao golpe, mas ainda insuficiente. Este, aliás foi um dos aspectos que deu errado, eles imaginavam que a reação seria bem menor. Mas é importante considerar que o golpe não foi somente um problema de fraqueza dos trabalhadores. O inimigo é muito poderoso e esteve por trás dos golpes de Estado no Brasil, pelo menos desde o segundo pós-guerra. Estamos enfrentando o imperialismo norte-americano, em meio a maior crise da história do capitalismo. O império tem que tomar medidas perigosas e extremas. É uma opção arriscada, claro, porque pode gerar inclusive um salto de qualidade no nível de consciência do povo. O imperialismo sabe disso, e por isso arrisca na América Latina e em outras partes do mundo. Na América do Sul, região que o imperialismo considera seu quintal geopolítico, a situação pode se agravar muito, inclusive com risco de invasão da Venezuela.

Precisam agora institucionalizar o golpe e eleger o seu candidato. Como aconteceu, por exemplo, no Paraguai. Neste quadro, promoveram no Brasil o candidato da extrema direita (que, até o momento, não é o candidato do Império) à “espantalho” do processo eleitoral, o que deve levar a sua desidratação. Claro, esta é apenas uma tendência: o cenário extremamente nebuloso, e a nossa carência de informações de bastidores, impede qualquer análise mais categórica. O certo é que, com qualquer resultado eleitoral, a luta contra o golpe irá continuar. Mesmo com uma eventual vitória das forças progressistas, irão tentar “completar o serviço”, talvez desestabilizando no curto prazo o novo governo. Para qualquer desfecho deste cenário extremamente incerto, o reforço da mobilização sindical, o debate permanente com os trabalhadores, as campanhas de sindicalização e o perseverante trabalho de base, são políticas para as quais não existe contraindicações.

*José Álvaro de Lima Cardoso é economista

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