Perspectiva é de aproximar inflação do centro da meta

De: 19 de dezembro de 2013 Clipping

A equipe econômica, do Ministério da Fazenda ao Banco Central, está contando com uma trégua no cenário inflacionário no começo de 2014, que poderá contribuir para ancorar as expectativas do mercado financeiro e trazer a inflação de médio e longo prazos para mais próximo do centro da meta oficial, de 4,5%.

"Devemos ter uma inflação mais baixa de agora para o primeiro trimestre de 2014", afirma o secretário de Política Econômica da Fazenda, Márcio Holland. "Como o segundo trimestre já é naturalmente de inflação baixa, teremos um comportamento mais benigno pelo menos até a metade do ano que vem."

Já estava nas contas do Banco Central, desde fins de setembro, um provável recuo, para mais próximo de 5%, da inflação acumulada em 12 meses, segundo as projeções de uma família de seus modelos econométricos – os chamados Vetores Autorregressivos (VAR) -, que costuma ser muito boa para antecipar a trajetória de preços no curto prazo.

Os índices de preços um pouco mais favoráveis divulgados recentemente, que baixaram a inflação acumulada em 12 meses do pico de 6,69% em junho para 5,77% em novembro, também tendem a contribuir para um quadro mais benigno no começo do ano. Assim como parte dos efeitos da dose adicional de aumento de juros sinalizada em setembro pelo próprio Banco Central. De lá para cá, o mercado financeiro aumentou de 2,5 pontos percentuais para 3,25 pontos percentuais a dose de aperto monetário projetada para este ciclo.

A grande preocupação é o índice de inflação de janeiro. Daí a decisão de adiar por prazo ainda indefinido o início da vigência das bandeiras tarifárias na energia elétrica. O governo arca com o ônus de ser acusado de administrar preços, mas evita uma alta de até 1% do IPCA em um momento crítico.

Uma das questões é se a inflação corrente mais baixa no começo de 2014, caso se confirme, vai se traduzir numa dinâmica de preços mais favorável no médio e longo prazos. As projeções oficiais de inflação que o Banco Central vai apresentar no relatório de inflação de dezembro provavelmente serão um pouco menores do que as da versão anterior do documento, de setembro, conforme indicado nas últimas atas do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas não devem apontar uma convergência clara e inequívoca dos índices de preços ao centro da meta.

Desde o início deste ciclo de aperto monetário, a autoridade monetária vem enfatizando a necessidade de vencer a batalha das expectativas, que tornam a inflação resistente. O presidente do BC, Alexandre Tombini, disse recentemente que o recuo da inflação vai ajudar nessa tarefa. As projeções de inflação do mercado deveriam olhar para as perspectivas futuras dos índices de preços, mas na prática há um peso muito grande das estatísticas mais recentes.

Há pelo menos três incertezas no horizonte que dificultam a convergência das metas: a compressão dos reajustes de preços administrados em 2013, difícil de se repetir no próximo ano; uma política fiscal vista pelo mercado ainda como expansionista; e uma possível depreciação adicional da taxa de câmbio ligada ao fim dos estímulos monetários excepcionais na economia americana.

Sobre os preços administrados, o Banco Central tem procurado mostrar aos analistas privados que já conta com reajustes mais fortes que os deste ano, na ordem do centro da meta, de 4,5%, tanto para 2014 quanto para 2015. Preços livres, que avançaram mais neste ano, tenderiam a caminhar com menos força nos próximos dois anos, abrindo espaço para acomodar a alta das tarifas.

Holland, da Fazenda, diz que os preços se movem em ciclos, ora para cima, ora para baixo. Preços de alimentos e bebidas, por exemplo, cresceram muito entre 2011 e 2012 e, agora, entraram numa dinâmica mais favorável. Bens duráveis tiveram uma fase de baixos reajustes, seguidas de altos reajustes e, neste momento, entram num ritmo mais suave de aumentos. Tarifas aéreas subiram muito em 2012, e menos neste fim de ano. Essas ondas mais favoráveis de preços tendem a abrir espaço no índice cheio de inflação para uma eventual aceleração e convergência de reajustes de preços administrados para o centro da meta.

A contínua expansão fiscal é outro desafio. No Banco Central, a visão oficial é que estão se criando as condições para que a política fiscal caminhe para o campo da neutralidade. Informalmente, a explicação é que, depois de seguidas reduções do superávit primário, o governo está diante de uma linha vermelha que não ousaria ultrapassar, pois dela em diante seria comprometida a própria solvência do setor público.

Em outras áreas do governo, há o diagnóstico de que os analistas do mercado financeiro têm subestimado a componente cíclica por trás da deterioração fiscal. Na medida em que a economia entrar numa trajetória mais favorável, puxada pela recuperação da atividade em países desenvolvidos, a receita tributária tenderá a se recompor. Muitos acham que será possível formar um "colchão" fiscal no começo de 2014 que ajudará a dissipar dívidas sobre o quadro fiscal ao longo do ano.

O risco cambial, apesar de ser sempre um fator imponderável, é tido no governo como perfeitamente manejável. O adiamento do fim dos estímulos monetários nos Estados Unidos, inicialmente esperado para setembro, permitiu que, por meio do seu programa de leilões cambiais, o Banco Central criasse uma porta mais larga e ordenada de saída para quem procurava proteção à variação do dólar.

O medo inflacionário da depreciação se dissipou. Desde maio, houve uma depreciação cambial perto de 20%, mas isso não impediu que a inflação de 2013 caminhasse para um valor menor que 2012. E as projeções de inflação do BC para 2014, no cenário de mercado, tem uma boa dose de realismo, com uma taxa de cambio em R$ 2,40. A inflação nesse cenário não tem uma clara tendencia de queda, mas não foge do controle.

Ainda que o quadro inflacionário tenha uma inclinação levemente positiva, o Banco Central tem enfatizado na sua comunicação institucional que ainda há muita incerteza pelo caminho, deixando em aberto seus próximos passos de política monetária. O discurso oficial é que o perto monetário feito até agora ainda está se transmitindo para a economia. E esse mecanismo opera com incertezas, ainda mais quando o cenário de estresse nos mercado internacionais leva a uma alta da curva de juros doméstica.

Dessa forma, permanece uma porta aberta para uma alta de 0,5 ponto dos juros agora em janeiro, igual a mais recente, feita em novembro. E mesmo para uma redução do ritmo, com uma alta de apenas 0,25 ponto percentual.

Fonte: Valor Online

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